O convite posto foi cumprido agora
você também pode fazer suas apreciações com o texto de Ítalo Calvino e o
trabalho realizado no AEE
“O modelo dos modelos”
Italo Calvino
Houve na vida do senhor Palomar uma época em
que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais
perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se
adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às
correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a
harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a
seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram
de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas.
[...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se
modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível
transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se
adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas
realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o
modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos
transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para
dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.
Neste ponto só restava a Palomar apagar da
mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que
ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não
homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para
fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com
a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis.
Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a
única que lhe parece praticável.
O
AEE EM BUSCA DE UM MODELO PRA CHAMAR DE SEU
As
grandes movimentações, lutas, retóricas e às vezes discursos inflamados sobre o
respeito à diversidade e a aceitação da diferença nunca estiveram tão evidentes
como nesse início do Século XXI, nossa realidade e sua construção de desiguais
em busca de uma igualdade palpável à todos. A escola mesmo com tanto descaso
por parte não só das autoridades ás vezes até mesmo da comunidade circunvizinha
que depreda queima e literalmente menospreza o poder desse espaço, que continua
a travar sua luta constante em busca da tal racionalidade que nos torna
diferentes dos animais e olha que não é pouca coisa, ciências humanas, exatas,
espaço cultural, artístico, social de construção e desconstrução de ideias. É nesse
espaço que nasce o Atendimento Educacional Especializado, idealizado como um
ponto de equilíbrio no contexto ter/não ter deficiência, ou melhor, uma
limitação especifica e mesmo assim garantir uma participação efetiva, ativa e
dinâmica de todas as possibilidades que o ambiente escolar proporciona a todos
nós, sem que a ideia do ideal seja um entrave nesse processo espiral
desencadeado na escola. Em nosso íntimo no deleite da exclusividade do ser
único assim como Palomar desenhamos cada um a sua maneira a visão do perfeito
do irretocável, e quando uma deficiência é a questão há que se ter meios para não
nos abatermos com a quebra de um modelo sonhado e alimentado por nossas expectativas
profissionais, o primeiro impacto pode ser o olhar mais desafiador da trajetória,
mas as praticas e os recursos fomentados pelo AEE tornam possíveis
os mais variados níveis de superação do ser humano. Há uma série de etapas e
procedimentos que precisam ser respeitados e executados com toda seriedade a
fim de garantirmos os objetivos desejados, mas a principal proposta do AEE não
é olhar a limitação que o outro trás consigo, o olhar externo, na verdade é um
olhar interno, o que eu estou disposto a superar? Qual o limite que tenho que ultrapassar?
O trabalho esta posto agora é agir e agir.